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Placas cranianas de titânio e próteses impressas em 3D sobre uma mesa de laboratório. Imagem ilustrativa.
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Fiocruz vai montar fábrica de próteses e implantes 3D em sala de 1.100 m² no CTI Renato Archer

O governo federal cedeu 1.100 metros quadrados dentro do CTI Renato Archer, em Campinas (SP), para a Fiocruz montar uma fábrica de próteses e implantes por impressão 3D. A meta declarada é produzir em escala próteses personalizadas e sistemas de placas e parafusos para reconstrução craniana destinados ao SUS.

A autorização saiu na Portaria MCTI nº 10.129, publicada em 12 de junho de 2026 e assinada pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos. Pela regra, o imóvel continua sendo da União, mas passa a ser usado pela Fiocruz sem custo, num modelo de cooperação entre instituições federais que o governo tem usado para acelerar projetos prioritários, segundo o Capital Digital.

O que a Fiocruz vai instalar no CTI Renato Archer

O nome oficial do projeto é longo e diz exatamente a que veio: "Estruturação de uma Plataforma de Manufatura Aditiva para Produção em Escala de Próteses Personalizadas e Sistemas de Placas e Parafusos para Implantes Ortopédicos em Reconstrução Craniana".

Traduzindo: o objetivo é sair do território de protótipo e peça sob encomenda e entrar no de produção contínua. A ideia é criar capacidade produtiva permanente para próteses personalizadas e dispositivos ortopédicos de alta complexidade, um segmento que ainda depende muito de fornecedores especializados e, em boa parte dos casos, de tecnologia importada.

A escolha do endereço não é acaso. O CTI Renato Archer é uma referência nacional em manufatura aditiva aplicada à saúde, com laboratórios, pesquisadores e infraestrutura já montados. Instalar a planta dentro do campus reduz o custo de implantação e encurta o caminho entre pesquisa e produto usado pelo sistema de saúde.

A portaria delega ao diretor do CTI Renato Archer a assinatura do termo definitivo de cessão de uso. Ou seja, a área está autorizada, e a obra e a montagem da linha vêm a seguir. Ainda não é uma fábrica funcionando, é a largada formal para construí-la.

Por que prótese craniana em 3D muda a conta do SUS

Aqui está o motivo de o projeto importar tanto. A reconstrução de crânio (cranioplastia) é cara e mais comum do que parece. Segundo a MIT Technology Review Brasil, cerca de 30 mil brasileiros passam por craniectomia por ano, o procedimento que remove parte do osso do crânio após trauma, AVC ou tumor.

A mesma reportagem, de 2023, traz a diferença de custo que sustenta o argumento. Uma prótese craniana tradicional, sob medida em titânio, pode custar de R$ 120 mil a R$ 200 mil. A versão personalizada feita por impressão 3D saía por volta de R$ 10 mil em custo operacional, com meta de chegar a R$ 6 mil em escala. Na ponta, é de 15 a 20 vezes mais barato.

No projeto de pesquisa que antecede essa fábrica, coordenado pelo pesquisador Renato Rozental e reunindo Fiocruz, Inmetro e CTI Renato Archer, mais de 120 pacientes já tinham recebido próteses por esse caminho até 2023, com economia estimada em torno de R$ 20 milhões para o SUS. A fábrica é a tentativa de transformar esse piloto em rotina.

Vale a ressalva honesta: esses números vêm da fase de pesquisa. O custo final em produção industrial, com regulação e logística próprias, só será conhecido quando a planta operar.

Como a manufatura aditiva monta um implante sob medida

O processo começa no tomógrafo, não na impressora. Os exames de imagem do paciente (tomografia ou ressonância) viram um modelo digital tridimensional do crânio. É esse modelo que serve de base para desenhar o implante que encaixa exatamente naquela falha óssea.

Boa parte desse trabalho roda em software brasileiro e gratuito. O InVesalius, desenvolvido pelo próprio CTI, reconstrói imagens médicas em 3D e já tinha usuários em 143 países em julho de 2017. É a peça que torna a cadeia barata, porque não exige licença cara para fazer a modelagem.

Esse know-how vem do ProMED, o programa de tecnologias 3D na saúde do CTI. Ele já produzia biomodelos (réplicas físicas das regiões lesionadas, usadas pelos cirurgiões para ensaiar cortes, marcações e fixação de próteses) e moldes para a região craniana antes desta fábrica existir.

Na prática, o implante pode ser impresso em PMMA (um polímero) usando moldes feitos por sinterização a laser, ou produzido em titânio para casos que pedem metal. O ganho não é só preço, é o encaixe: a prótese se adapta ao paciente, e não o contrário.

O custo do método é tempo e regulação. A cadeia digital da prótese craniana levava cerca de 42 horas entre modelagem, design, impressão e pós-processamento, segundo a MIT Technology Review. E todo dispositivo implantável precisa de validação e registro sanitário, etapa que uma fábrica formal terá de cumprir de ponta a ponta.

Do laboratório para a escala: o desafio real

Transformar um projeto de pesquisa em linha de produção é um salto, não um upgrade. Pesquisa entrega peças validadas uma a uma. Fábrica precisa entregar lote após lote com a mesma qualidade, rastreabilidade e prazo, dentro das normas da Anvisa para produtos para a saúde.

Há também a questão da soberania industrial. Hoje, parte dos insumos e equipamentos de manufatura aditiva de grau médico é importada. Uma planta pública estável só reduz a dependência externa se vier acompanhada de fornecimento nacional de matéria-prima e de manutenção das máquinas.

O lado bom é o endereço. Nascer dentro de um centro que faz isso há anos, com o time do ProMED ao lado, é o melhor cenário possível para essa travessia. O risco mora na execução e no prazo, não na ciência.

O que isso muda para quem é do Tocantins

Para o paciente de Palmas, Araguaína ou Gurupi, o gargalo de hoje não é só preço, é acesso. Procedimentos de alta complexidade em neurocirurgia e a confecção de próteses sob medida costumam concentrar-se em poucos centros do Sudeste, o que significa fila, viagem e espera para quem mora longe.

Uma plataforma nacional do SUS, com custo unitário menor e capacidade de produção contínua, é o tipo de estrutura que pode encurtar essa distância, desde que a logística de envio das peças para outros estados entre no projeto. É aí que mora o interesse regional: não na fábrica em si, mas na chance de uma prótese desenhada em Campinas chegar a um hospital do Tocantins sem custar uma fortuna.

Para a comunidade maker do estado, fica o recado técnico. A mesma lógica de tomografia que vira modelo digital e depois peça impressa é a base da impressão 3D aplicada à saúde. É um campo em crescimento, que vai pedir gente que entenda de modelagem, materiais e validação.

Perguntas frequentes

A fábrica da Fiocruz já está funcionando?

Não. A Portaria MCTI nº 10.129, de junho de 2026, autorizou a cessão da área de 1.100 m² dentro do CTI Renato Archer. A construção e a montagem da linha de produção vêm depois dessa etapa formal.

Onde fica a fábrica?

Dentro do campus do CTI Renato Archer, em Campinas, no interior de São Paulo. A área pertence à União e será usada pela Fiocruz sem custo.

O que exatamente vai ser produzido?

Próteses personalizadas e sistemas de placas e parafusos para implantes ortopédicos voltados à reconstrução craniana, por manufatura aditiva (impressão 3D), em escala.

Quanto custa uma prótese craniana 3D ante a tradicional?

Segundo a MIT Technology Review Brasil, a versão impressa em 3D saía por volta de R$ 10 mil em custo operacional na fase de pesquisa, contra R$ 120 mil a R$ 200 mil de uma prótese tradicional em titânio. Os valores finais de produção industrial ainda serão definidos.

Que software é usado para desenhar os implantes?

O InVesalius, programa livre e gratuito desenvolvido pelo próprio CTI Renato Archer, que reconstrói imagens de tomografia e ressonância em modelos 3D.

O paciente do SUS já consegue essa prótese hoje?

Pela via de pesquisa, sim, em hospitais parceiros do projeto. Mais de 120 pacientes já tinham sido atendidos até 2023. A fábrica busca tornar isso uma oferta regular, e não pontual.

Onde ir agora

Quer entender a tecnologia por trás dessa notícia antes que a fábrica saia do papel? Veja nossos guias sobre impressão 3D e manufatura aditiva no hub de conhecimento do 3D Tocantins e acompanhe como essa cadeia, do escaneamento ao objeto final, está chegando ao estado.

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